segunda-feira, novembro 12, 2007

Temos um tesouro para oferecer


Esses dias, tenho meditado muito na ausência de identidade (verdadeiramente) cristã em nosso meio. E o que vejo?! Vejo que muitos são os que se receiam em reconhecer a própria fisionomia e a própria identidade como modificadas (cf. 2Co 3.12-18) pela missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar, dar sabor... – enfim, doar-se! – conforme é o Espírito do Evangelho.Muitos são os que não sabem qual identidade carregam na existência, e por isso optaram dês-graça-damente pela mediocridade como estilo de vida – já que a vocação natural da alma é para a idolatria – , e de tão adoecidos que estão, não mais entendem que a maior maldição desta vida é viver a vida que não é a nossa.


Ah...!!! São muitos os que não sabem de que espírito são, que ainda não se entenderam como suprimento da Graça aos outros, como uma pitada de Deus para dar sabor no mundo. Muitos são ainda os que não vivem de maneira digna da vocação que receberam, pois têm medo de crer (e acreditar) que nasceram com um propósito divino. São muitos os que não se (re)encantam mais com o fato de que o existir é fruto de uma pulsão divina, que foram desejados por Deus para um fim útil.


É isso o que vejo! Vejo que muitos caíram na "de-significação" do SER, posto que não se percebem integrados aos que foram chamados para uma "santa vocação" em Cristo (cf. Ef 4.1) a exercer em plena convicção madura da fé o sacerdócio real dos crentes!


Me incomoda e entristece ver que o "cinismo dos santos" e a "síndrome de Nazaré" tem feito surgir uma geração de pessoas que vivem "em contradição" ao que professam compreender do Evangelho. Uma geração que apenas carrega a fama de estarem vivos, mas na verdade estão mortos. É gente que tem na alma uma Társis existencial tatuada, e por isso preferem o isolamento narcisista e altista – querem a todo custo fugir do "ser para fora"! E isso me incomoda muito... Pois está muito claro para mim, que só faz o Caminho de fato, aquele que experimentou a escuridão da morte de si mesmo no estômago do peixe, e que é vomitado para uma vida nova – uma vida que responde à verdadeira identidade e vocação infundidas pelo Espírito no coração daquele que creu e anda em fé!


O Caminho da Graça é a jornada daqueles que carregam dentro de si o Caminho, a Verdade e a Vida. É no coração que a viagem verdadeira acontece! E para a saúde de todo aquele que crê e anda, saiba-se que não há como pisar e ser no chão de alguma "missão" sem que antes o Evangelho tenha entrado na vida e libertado a consciência para a conversão à Graça de Deus. Não há como multiplicar Graça e Vida se tal realidade não se instalou em mim para além da informação. O Evangelho tem que entrar na vida... e produzir alguma coisa!


Nossa vocação mais essencial é "para ser" – sendo-indo-sendo! E nesse processo constante e dinâmico, em que a identidade e a missão se existencializaram e se integralizaram a vida; é que cada um se percebe um multiplicador da Palavra da Vida que o habita. Tal processo acontece como decorrência natural dos efeitos da Palavra da Vida em nós, e indo... passamos a "ser testemunhas" do Amor e Graça de Deus! Portanto, reafirmamos que o que recebemos do Senhor é "antes de ser um chamado para fazer é uma convocação para ser"!


No entanto, quero ressaltar algo importante que penso ter muito a ver com essa ausência de identidade, ou de-significação do ser vista no nosso meio. Em primeiro lugar, precisamos entender que nessa jornada não fomos convidados à pusilanimidade – leia-se; covardia, falta de coragem, fraqueza de ânimo, frouxidão, timidez excessiva, ou ainda, "vitimizações decorrentes dos traumas religiosos passados e medo de assumir a breguice do testemunho público" – ; mas à loucura radical de viver uma vida que manifesta a encarnação da verdade do Evangelho da Graça vista em Jesus Cristo. Quiçá, aqui nos cabe usar a expressão "viver uma vida surtada dos surtos de obediência à Voz"! E por último, como conseqüência obvia, é que afirmo a necessidade urgente de se entender que nesse caminhar, deve haver coerência entre "a intenção e a ação"... entre a interioridade e exterioridade. Não há dualismo entre o ser e o fazer... visto que se descobri quem sou, descobri o "para quê, para o quê e ou para quem". Portanto, cada um aqui está convocado a buscar diante de Deus a definição de sua identidade e missão, a fim de exercê-las no seu dia a dia. E a consciência da identidade-missão será autenticada pela prática na "existencialidade diária de cada indivíduo".


Mas, parece que ninguém deseja seguir a Jesus e fazer disso um "fascinante projeto de vida"!


Meus amados irmãos de Caminho... Urge que saibamos em verdade, que a Graça nos inclui para nos enviar. E ainda que o mundo de hoje pareça pouco receptivo diante da proposta do Evangelho, não devemos nos calar ou nos tornarmos tímidos, pois o que o mundo oferece não tem mais poder e mais beleza que o Evangelho. Ou por acaso você considera que tenha?! Você acha que a política internacional oferece à humanidade algo mais?! Será que o neoliberalismo reinante merece que confiemos em suas receitas de salvação?! Ou por acaso o hedonismo individualista pode fazer renascer uma humanidade melhor?! Por acaso o progresso cientifico e econômico sem limites morais pode assegurar um futuro de justiça, paz e liberdade?! O que você acha?!


Gente amada... se o mundo é dominado por valores antievangélicos – leia-se; do Evangelho, conforme lemos em Filipenses –, o que lhe faz falta é exatamente a riqueza e a força do Evangelho. Mas como crerão em algo que nunca ouviram falar?! E como ouvirão, se não há quem pregue?! Nós sabemos que o anúncio vigoroso do Evangelho pode gerar uma verdadeira revolução na sociedade de nossos dias – é possível um mundo novo. Mas, não há quem queira ir! É verdade! Não há quem queira fazer parte da revolução do sal.


Então... A quem apresentaremos nossas desculpas com as quais pretendemos justificar nossos dês-ânimos, dês-compromissos, covardias e comodidades?!


Por favor!!! É isso mesmo. É um apelo que faço... E o faço pra mim em primeiro lugar! Precisamos acreditar que carregamos um "tesouro a oferecer". Não há razões para continuarmos a privar os outros de tão grande bem! Precisamos dar mais Esdras a nós mesmos, de modo que percebamos o quão útil ainda somos na reconstrução dos muros derrubados pela idolatria e pela incredulidade!


Por favor, peço, pense nisto!


Meu desejo e oração é que "o coração de vocês se encha de coragem, e que unidos em amor, fiquem completamente enriquecidos com a segurança que é dada pela verdadeira compreensão do mistério de Deus. Estejam certos de que este mistério é Cristo, o qual é a chave que abre todos os tesouros escondidos do conhecimento e da sabedoria que vem de Deus... Fiquem unidos e firmes na fé em Cristo".


Em amor e serviço,


Nele, em quem somos na medida que caminhamos.


Chico.

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