domingo, outubro 28, 2007

Carta

Paz e graça
Caro Henrique devido ao grande número de trabalhos de faculdade da Adriana nossa mentora digamos assim estamos dando um tempo para ela se atualizar e assim que retornarmos, marcaremos esse encontro.
abraços
Aproveitando a oportunidade, conheci um cara prefiro não citar nome, que foi ao encontro no sítio que vocês fizeram esses dias, ele me passou que sobre o tema da homoxessualidade vcs consideram que se for por amor, tudo é válido, ele não entendeu errado?

Resposta

Amado Paulo, Vida e Alegria!

Desde já, agradeço pelo retorno.

Acerca do convite para o encontro, continuamos à sua disposição, basta contatar-nos. Espero que a Adriana resolva bem essa “pendenga”, sei bem o que é isso, e o quanto me afeta.

Sobre o tal cara que você conheceu, que participou da Confraternização, quero apenas fazer uma pequena indagação: foi apenas sobre isso que ele comentou contigo? Espero que não, pois seria um reducionismo “daqueles”. Espero, sinceramente, que ele tenha podido narrar experiências edificantes, coisas que transcendem em muito um mero acúmulo de conhecimento, debate, argumentação teológica, opiniões pessoais e coisas afins.

Aliás, antes que eu me esqueça, vale um outro convite: no dia 10/11, um sábado, estaremos participando de um “junta”, uma espécie de “ressaca” da Confraternização. Será num sítio em Igarapé, onde passaremos o dia em comunhão. Você é nosso convidado, e o convite se estende aos seus amigos, conhecidos, colegas, parentes, etc... Caso queira, peço-lhe a gentileza de contatar-nos, afim de que nos programemos sobre carona, comida, esse tipo de coisa.
Homossexualidade é um verdadeiro “tabu”, no sentido tanto freudiano (Totem e Tabu, um clássico bem pertinente) quanto antropológico mesmo, principalmente no contexto da religiosidade.

Poderia indicar inúmeras obras solidamente embasadas sobre o tema, principalmente dentro da minha “praia” (ciências sociais), mas optarei por não fazê-lo.

Poderia realizar algumas “viagens” históricas no afã de uma comparação histórico-cultural, tão comum e fácil de se fazer, que lançam alguma luz sobre a “temática”.

Outrossim poderia indicar o próprio site do Pr. Caio Fábio, o qual, como você deve ter ciência, está repleto de textos, artigos, cartas relacionadas ao tema, sempre com a perspicácia e lucidez que são peculiares ao Caio.

A razão de não adotar estas vias é muito simples: o espírito do Evangelho, tal qual não apenas anunciado e pronunciado, mas visceralmente encarnado por Jesus, nos remete a uma postura que não pode deixar pairar dúvidas sobre a nosso olhar a ser adotado. Não falarei de uma visão racionalizada, mas, sim, simplesmente empírica. Pra mim, ela bastou, basta e bastará sempre!

Assim, você não verá aqui nenhum tom apologético, apaixonado (no pior sentido do termo – leia-se mesmo ensandecido) em relação ao tema. O que acontece é que somos submissos ao Evangelho, que – Graças a Deus -, é infinitamente maior do que os opinólogos de plantão. É no espírito Dele, e não na logicidade duplamente mortal - mortal para o outro e para si mesmo – da Lei, do “está escrito”, que ousamos caminhar. Não caminharemos sob o jugo de uma lógica estrutural, como diria Erving Goffman, que nos remete à noção, infelizmente tão recorrente, de algo mais ou menos assim: “morra o homem, e viva a Lei”. Não!

Só que cometemos, inconscientemente, o triste engano de pensarmos que Lei é coisa exclusiva de legalistas. Não o é! Quem dera assim o fosse!

Sua pergunta traz em seu bojo uma ponderação que merece ser pensada: o amor pode tudo? Eu indagaria: mas o que vem a ser esse “tudo”? Agostinho de Hipona já dizia, numa frase tão citada quanto distorcida em seu sentido original: “Ame e faze o que quiseres”.

Quando você pergunta “tudo”, provavelmente se refira ao ato sexual com alguém do mesmo sexo. Estou correto?

“Interessante” – leia-se mesmo “curioso” - é o fato de associar amor a performatividade sexual, e sexualidade a ato sexual. Que tristeza!

Michel Foucault já postulava ser nossa sociedade ocidental eminentemente “sexocêntrica”. Concordo plenamente com ele.

Preocupamos-nos muito com o comportamento sexual do outro, além de nos angustiarmos com o nosso próprio padrão.
Cumpre uma pergunta fatídica: por que definir o que alguém é simplesmente pelo que ele faz (ou já fez, ou gostaria de fazer, e por aí vai) na cama, mato, chão, etc.., e com quem faz? (use a imaginação). Que definidor identitário é esse? E por que justamente ele?

Por que isso tem a ver com o fato de que eu e minha mulher, tendo uma filhinha de 1 ano (a lindona da Sofia), colocamos nela objetos cor-de-rosa, tiaras e laços de fita (mesmo sendo ela careca, e, portanto, utilitariamente sendo-lhe desnecessários tais apetrechos, restando-nos pensar na dimensão simbólica disso tudo), reafirmando algo em tese inato a ela: “coisa de mulher”.

Isso ocorre porque, como me ensinou a antropologia social, é através do corpo que nós existimos socialmente, havendo uma constante colagem de significados no mesmo, então o suposto amálgama sexo / gênero pode ser questionado ou problematizado. Há toda uma pedagogia social que aponta para a diferenciação física dos corpos, onde utilizamos sinais que apontem para o gênero ao qual ele se identifica.

Cumpre ainda uma espécie de “ressalva” que é, ao mesmo tempo, em si mesmo relativizada: como já mencionou alguém (sinceramente, não estou lembrado do nome...rsrsrs....coisa de quem já corrigiu atividades de 100 alunos, e cujos neurônios já se encontram “lesados..), “quem está crucificado com (e em) Cristo não tem mãos para segurar nenhuma bandeira”.

No mesmo diapasão, no Caminho da Graça – não restrito ao movimento histórico que existe sob esta alcunha, mas digo no sentido amplo do termo, ou seja, no Caminho de Graça mesmo! -, não se faz nenhum movimento “pró-Gays”, “Pró-GLBT”, Pró-isso ou aquilo”.

Jamais faríamos seminários, colóquios, debates, e coisas do gênero para tratar do assunto! Nunca participaria de uma mesa-redonda para tratar de um assunto que é, ao mesmo tempo, tão complexo no âmbito do debate científico(seja em que paradigma estiver circunscrito o debate), e tão simples em seus desdobramentos cotidianos. Para mim, não se trata de algo a ser “resolvido”!

Não! Somos do Evangelho, e isso nos basta, bastou e bastará! É nessa simplicidade existencial que queremos caminhar. O próprio Evangelho, como mensagem que é (e não como uma espécie de “manual de instruções”, como nitidamente querem entender alguns), é espírito e vida, um Bem pro meu coração, nos mostra a postura a ser adotada.

Perceba, por favor, que não estou falando de Bíblia, mas da Palavra, como espírito (geist) mesmo!

Quiçá seja pertinente trazer a lume um exemplo recentemente vivenciado por mim: há um mês atrás, ao falar da Palavra para um pequeno grupo, vi que um casal estava com seriíssimas dificuldades na compreensão da mensagem de um determinado texto. E era versículo pra cá, auto-defesa pra lá, coisa “esquisita” mesmo. Foi quando lhes disse algo do tipo: “esse papo de obra de Deus, de bíblia, blá-blá-blá”, está lhes causando mal! Talvez seja melhor parar com tal “obra de Deus” e experimentar uma vida a dois que talvez vocês nunca tenham experimentado. Talvez seja hora de trocar a Bíblia por um saco de pipoca, e comê-lo assistindo a um filme com a sua mulher. Coisa que me “deu na cabeça”. Não sabia nada sobre eles.

Muitos dias depois, fiquei sabendo que o cara “cobria de cacete” a mulher. E, depois da Palavra...Tcham, tcham, tcham, tcham! Pode ficar tranqüilo, não trago aqui nenhum “grand finale” neopentecostal: o cara resolveu dar outra surra na mulher... e por aí vai...

Portanto, ao frisar a percepção da Palavra¸ em detrimento de uma busca frenética e por textos bíblicos do tipo: “não toques”, não proves”, “não isso”, “não aquilo”, é porque sei do caráter vivificante dela, e do caráter rijo e procustinizador (vale a pena conferir a belíssima metáfora weberiana acerca deste ser mitológico grego) da Lei! Creio nisso até as últimas conseqüências!

Assim como você foi sincero conosco, segundo minha singela percepção, sou sincero contigo, esperando não estar equivocado. Falo do jeito que espero que as pessoas hajam para comigo, ou seja, sem basear-se nos “jogos das expectativas sociais”. Narro, muito açodadamente, elementos da minha biografia pessoal, que estão relacionados ao que aqui nos propomos a esboçar:

Nasci num lar “evangélico”. Minha mãe ficou grávida de mim, aos 17 anos, sendo ainda solteira. Meu pai (biológico) sumiu (há aquele trocadilho chato e pueril: “não assumiu, mas sumiu”), fui “criado” com o auxílio, extremamente amoroso e bondoso (até hoje é assim!) dos meus avós.

Minha mãe conheceu um seminarista numa igreja batista. Eles ficaram interessados um no outro, ele me conheceu, ficou ciente da “situação” (eu tinha uns 6 anos, salvo engano), e resolveram casar-se. Quando eu tinha 10 anos aconteceu o casamento. Fui pajem do casamento da minha mãe!

Com o casamento, sem que houvesse nenhuma sugestão por parte da minha família, ele fez absoluta questão de registrar-me como seu filho.

Pois é, o casamento durou uns 2 anos, e eles se separaram. Motivo: ele era um homossexual, que tentava, em vão (no caso dele específico, não faço aqui uma declaração tola de âmbito universal), ir contra suas pulsões sexuais.

Resumindo a resumidíssima ópera – o tom pleonástico é intencional: ele é o meu pai, e eu o amo! Como se isso não bastasse, ele ainda me ama! Que bom! Ele mora no exterior, e quando nos encontramos, acontece um encontro de amor! Temos diferenças sim, mas nenhuma delas está relacionada a comportamentalidades ou preferências sexuais.

Vale lembrar o que mencionei anteriormente, sobre o caráter arbitrário de se pensar a opção sexual como “supremo” demarcador identitário. Pensamos diferente sobre o ethos norte-americano (ele se identifica, e eu já tenho “certa” dificuldade), sobre a sobrevalorização do “vil metal”, esse tipo de coisa.

Mas o que vale e permanece é o Amor que se revela nas pequenas coisas e gestos. Amor que não fica se indagando: por que? Mas que aceita e acolhe, e que mais recebe do que dá, que é o que, infelizmente acontece no meu caso em relação a ele.

Espero que, ao visitar-me em BH, ele sinta-se à vontade para estar na Estação BH, ou em qualquer estação do Caminho da Graça. Que ele se sinta bem. Que se sinta não simplesmente “não discriminado” – a tão falada “tolerância” -, mas realmente amado. É assim que o meu Pai (celestial) me vê, sendo eu não melhor do que o tal filho (dito) pródigo, que é acolhido e incluído na Graça, sem que sejam feitos quaisquer questionamentos.

Como nos ensinou o Brega, lá na Confraternização (estou certo de que o tal cara também deve ter lhe contado sobre isso!): de onde vinha a renda para a aquisição do perfume que aquela mulher, de comportamento social e moralmente “duvidoso”, derramou sobre os pés de Jesus, justamente na casa de um fariseu? Só sei de uma coisa: Ele aceitou. E, em aceitando o que ela lhe ofereceu, também pode aceitar-me como sou.

Isso, per se, me cala em profunda reverência.

De modo conclusivo, meu irmão, espero que você consiga fazer, dialeticamente, uma síntese do “espírito” do que foi dito aqui. Na verdade, confesso-lhe lamentar por ter que escrever sobre tais assuntos (veja bem o horário do recebimento do e-mail...eu poderia estar fazendo qualquer outra coisa, de preferência dormindo, mas o faço por amor e, portanto, com seriedade), que me parecem coisa “dinossáurica”, “arqueológica” até; mas, por muito tempo, também tive “grilos” como estes seus, e é somente pela revelação das escrituras é que conseguimos caminhar de maneira sadia e “espiritualmente sustentável”, parafraseando um conceito que sói muito em voga. Ajuda um bocadinho também o exercício (ou na tentativa dele, dadas as implicações existenciais de tal tarefa) da suprema postura antropológica de “colocar-se no lugar do outro”.

Tudo, cada sílaba do que lhe escrevo, meu querido, foi escrita (ou, melhor dizendo, teclada) com amor. Sem pieguice, mas é isso mesmo: com amor.

Amor que me mobiliza ao encontro com o outro.

Amor que me faz despir de uma postura judicativa em relação ao outro.

Amor que me livra de engasgar com os “mosquitos” da insignificância, me permitindo sempre a observação da minha “cameilidade”, daquilo que habita em mim, e que é mau. É grande, e eu ainda não enxergo, ou não quero enxergar. Dúvidas? Já ouviu falar num tal de “inconsciente”? Pois é... e “aqueles” sonhos “inconfessáveis” que temos – espero estar diante de um ser normal -, que fariam corar de vergonha algumas pessoas que nos vêem com um olhar “totemizado”, ou , no mínimo, como projeções existenciais destoantes daquilo que somos?

Como o próprio Jesus disse, as meretrizes – putas é melhor, meretrizes me parece coisa de pudor de tradução – e os publicanos – a atual conjuntura nacional lhe lembra alguma coisa?– precedem aos da Lei no Reino (Mt 21).

Ele também disse que, como os caras do status quo sócio-político-religioso (fariseus, herodianos e saduceus são colocados por Jesus no mesmo patamar: raça de víboras!) não quiseram banquetear com Ele, que é o Rei, então foram enviados servos aos caminhos buscar quem o quisesse, bons e maus. (Mt 22).

O mau não é o outro, sou eu mesmo.

Isso me basta, e me conduz novamente a um silêncio autenticamente reverente.

Ainda bem que a Graça, para ser Graça de verdade, “ de com força”, como se expressam alguns, é assim mesmo:

Escandalosa!

Incômoda!

Não restrita aos padrões simplistas estabelecidos por uma (suposta) moral vigente kantiana.

Des-estabilizadora!
Iconoclasticamente existente até, sem precisar fazer uso dos tradicionais métodos (ditos) revolucionários conhecidos por nós! É revolução acontecendo no terreno onde tem mesmo que acontecer, ou seja, no do coração!

Destarte, a mesa do banquete estará sempre posta para todos. ocorre que alguns simplesmente não quiseram vir. Espero que a frase seja auto-evidente e explicativa.

Espero que, em qualquer estação do Caminho da Graça, qualquer pessoa possa ser bem recebida, sem comportamentalismos “politicamente corretos”, mas somente por amor mesmo. Até porque no Caminho de Graça – não o histórico, mas o do coração mesmo, aquele que só Ele conhece, é assim que acontece.

Seja quem for, o que for, do jeito que for.

Tenha pênis (“falo” – objeto fálico soa melhor?) ou não.

Goste de pênis ou não.

Goste do seu pênis ou não.

Não esteja nem aí para essa “parafernália sexual”, ou seja neurótico quanto a isso.

Goste de “otras cositas mas”...

Tenha sonhos eroticamente loucos ou não.

Que seja sempre uma ambiência em que cada um não precise ser nada além daquilo que já é.

E que ninguém seja rotulado e rotulável por nada, mas somente coberto pelo sangue do Cordeiro.

Que não sejamos nós como aquele que foi “pego de calça curta” – a simbologia metafórica é intencional! – na parábola do banquete (Mt 22). Que estejamos nus com as vestes nupciais.

É interessante notarmos que o simbolismo destas vestes nupciais está justamente na nudez! Só pode vestir tais vestes quem já não quer mais vestir-se por si só (justiça-própria, até mesmo calcada na idéia de que, sexualmente, “fiz o dever de casa”), ou seja, quem está nu diante Daquele que nos conhece!

E pronto.

E basta.

E é só assim que alguém caminha com paz, com leveza e com alegria. É o que quero pra mim e pra você.

Como já disse o Caio, “no Caminho da Graça, amamos a estreiteza do Caminho”. É assim mesmo.

Como seu servo,

Um beijo (ops, abraço...),

Henrique Willer

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