terça-feira, maio 06, 2008

OS ENCONTROS NO ENCONTRO DAS ESTAÇÕES EM FORTALEZA

DE FONSECA -
ESTAÇÃO GOIÂNIA

Fortaleza para mim foi “O Encontro”. Todos os outros encontros que eu participei foram, para mim, desencontros.

Eu estava ensimesmado pela dor. Foi assim por mais de dois anos, bem mais. Coisa ridícula o egocentrismo; como é grotesco o personalismo.

O que a princípio era apenas medo horrível de contato humano, todo e qualquer toque se transformava em evoluções de nuances mais variadas de dor, foi, aos poucos, se transportando para a alma. O que era, a princípio, apenas impossibilidade de assentar-me à frente do computador para responder a manifestações de encontros de alma, foi se transformando em hábito. Eu já nem lia qualquer e.mail apenas para não ter que a nada responder. Os significados foram se perdendo. As importâncias foram diminuindo. As pessoas, gente, apenas gente, foram desvanecendo.

A compaixão com que fui tratado por todos, a começar do meu amado irmão Caio - quanta misericórdia, meu Deus - que puxou esse cordão diante de todos e todos foram se unindo a ele, azeitou por fora o invólucro em que me meti e de dentro da nebulosa de mim mesmo fui percebendo as coisas acontecendo, os amados irmãos se agregando, os encontros acontecendo e eu ali, quieto e envolto por essa unção de amor com o coração empedernindo pela falta da prática dos encontros, daquele trabalho ininterrupto de ter de se fazer bem-vindo, sempre, como acontece em todo e qualquer encontro sadio.

Eu estava, finalmente, casado com uma dor ciumenta, rival de tudo, até mesmo da minha família, de Rosane querida demais, filhos e netinho.

Dor infiel essa, que me abandona subitamente, da noite para o dia. Vejo-me só, ainda envolto num manto que, além perder a razão de ser e existir, cobre-me de vergonha pelo escândalo da imagem que cristaliza na minha retina de um nenenzão acalentado pelo cansaço de todos, chupando dedo.

Esse encontro começa para mim ainda no avião. Deparo-me com o mano Henrique de Belo Horizonte, assentado na janelinha, espremido na combi-voadora que se transformou os nossos aviões. Quem conhece o Henrique? Alguém já conheceu pessoa mais afável? Eu tinha rejeitado toda e qualquer manifestação de ternura vinda dele desde o nosso primeiro encontro-desencontro. Eu escolhera a saída de emergência para caberem as minhas pernas, mas trocaria de lugar para tentar correr atrás das pontes destruídas por mim. O avião encheu e fiquei assentado na única fileira com espaço e o coração mais apertado do que qualquer perna ali dentro.

No ônibus que nos levou até o local do encontro, forçadamente por mim assentado ao lado dele, não o deixaria por nada, veio o querido Jack conversar conosco. Olhar profundo, corpo magro, dando-me a sensação de um certo abatimento, numa humildade de doer a alma, disse-nos que viu-se subitamente escândalo de si mesmo e isso estava lhe trazendo uma cura enorme para a alma.

Era tudo o que eu precisava ouvir naquele encontro.

Puxa, como Deus age em ambientes de amor! Ninguém acusa a ninguém de nada! Apenas o desnudar dos próprios corações diante de outros trás consigo o escrito de dívida que te pega de surpresa, te agarra pela trama da própria babaquice humana, carnal, e lança ao rosto a verdade de se ver desnudo, sem chão, sem teto, sem parede e sem lugar de refúgio.

Eu, escândalo de mim.

Nenhuma acusação de qualquer olhar que fosse, apenas de mim mesmo e da minha consciência.

O show de humor foi o início da catarse, o pivô para lançar-me à árdua tarefa de tentar dizer a todos que eu me enxergava. Um ser humano veste-se de ridículo, ridiculariza a todos e, de tão ridículo que é, mesmo tirando gargalhadas deliciosas de todos, trás em si a leitura intrínseca de que qualquer que imitá-lo na ridiculização do outro, torna-se tão ridículo quanto ele. Assim ríamos do supra-sumo do grotesco.

Assentei-me à frente, ao lado da doce Malu que estava à beira de um ataque de tanto rir. O cidadão me chama, finalmente, junto com mais dois irmãos para dançar um reggae. Ensina-me de forma ridícula a fazê-lo. Simples: lança as pernas alternadamente à frente, abana a bunda alternadamente com os braços e faz cara de retardado. Tentei, juro que tentei. Todos são testemunhas de como eu tentei. Ele tentou que eu fizesse. Ensinou-me duas vezes. Mas a cintura empedrada não deixou. Bebi muito leite quando criança. Quem bebe muito leite quando criança fica com a cintura empedrada. Quando ele foi perguntar à Malu se eu era normal trouxe-me uma sensação nítida de que ela iria desmaiar de falta de ar. De tanto rir. Fui substituído. A única substituição. Eu era ridículo demais para aquela demonstração de ridiculez. Nem para isso eu servia. Que bom.

Preparei-me para tudo. Menos para o que de verdade aconteceu. Fui pego de surpresa pelo fenômeno desse Caminho. As pontes destruídas por mim estavam pré-fabricadas nos corações de todos que procurei. Eu achava que seria um longo caminho e não foi.

“Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me inclinei para dar-lhes de comer.” Oséias 11:4

Vi-me pequeno diante de todo amor demonstrado, de todo perdão concedido, de todas as mãos estendidas para a aproximação.

Como quis encontrar outros para isso, que ali não puderam estar, mas que sabem que o que eu estou aqui dizendo, caso leiam o que aqui escrevo a todos, que são para estes a quem me dirijo, também. Ah, sabem.

Saí daquele encontro com o coração explodindo de gratidão.

Porém, de toda a gratidão que se reserva aos manos amados que acolheram a mão estendida, cresce numa dívida de amor que apenas Deus poderá por mim pagar, a quem, apesar de todas as coisas, não deixou que eu sucumbisse em mim mesmo, diante de Rosane querida, diante dos meus filhos e diante de todos: Caio. Nosso querido e amado pastor Caio.

Com carinho e amor, aqui chorando de nem sei o que,

Tõe.

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