quinta-feira, maio 29, 2008

IV - UM NOVO TEMPO... APESAR DOS PESARES...

Na manhã do último dia em Fortaleza, nos reunimos para a Ceia do Senhor.

A Mesa estava típica, regionalizada, cearense, muito linda! Pois o pão não foi pão, foi tapioca. Como efeito decorativo, estava toda ornada com folhas e com o cocos, com frutos e frutas regionais, um sol gostoso e muito carinho entre todos.

Aquilo tudo me reportou para a atualização necessária no dia a dia da Caminhada e para a contextualização da jornada do Movimento, de sua trajetória comunitária, de sua revelância histórica e de sua Missão - temas que nortearam as Mensagens do Caio durante esses dias.

Sim, quem caminha sempre vê novas paisagens. Quem caminha, encara climas diferentes e estações em revezamento. Quem caminha, percebe a mudança de cenários. Quem caminha, anda. Vai adiante. Segue em frente. Sem olhar para trás. Mãos postas no arado. Pés que, inevitavelmente se sujam no percurso, contudo, a cabeça está sempre antecipadamente lavada pela Palavra! E caminhando assim, "se FAZ o Caminho!"

Contudo, conforme explicitado naquela manhã de Ceia (uma síntese das coisas já ditas) muitos de nós ainda estamos em velório, num sepultamento interminável. Enterramos os mortos o tempo inteiro, mas nunca lhes dando por ENTERRADOS!

Aí a Missão fica esperando. Fica esperando a gente parar de chorar o passado que tivemos, o procedimento no cristianismo, o zelo com tudo, a energia demandada, a prodigalidade com que sempre nos dedicamos à "igreja".

- "Vem e segue-me!"
- "Senhor, espera primeiro acabar essa cerimônia toda, estou preso aqui, chorando tudo que eu perdi para ganhar a Cristo!"

Isso vicia. Essa coisa toda de ficar remoendo a "igreja" vicia. A pessoa acaba pensando que o "Caminho" é isso: Viver em resposta a algo ou alguém! A mente fica presa em considerações infindáveis acerca do que passou, de como foi "saído" de onde estava, de como foi ferido, injustiçado, mal-compreendido. E fica aquele agasalhamento eterno, a glorificação do próprio martírio, como se martirizado tivesse sido. Temo que se alguém não tiver uma história de ruptura dramática com a "instituição" para contar como currículo, acabe por se sentir envergonhado diante da exaltação dos sofrimentos que os demais foram submetidos, quando julgados pelo "Sinédrio". Ora, feliz de quem vem sem cortar laços e sem marginalização; mais feliz ainda de quem vem sem o ingênuo pensamento de que saindo da coisa toda, ela - a coisa - automaticamente sai de você. Sim, porque ninguém foi tão vítima assim. Todo mundo que apanhou, também bateu! E, se como um pastor da Lei, você não matou ninguém, ao menos, sabe que deixou morrer...

Esse é o apelo, então: É tempo de deixar para trás o que ficou para trás, permitir que as velas se apaguem sozinhas e que os mortos sepultem seus próprios mortos, bastando a cada um de nós que simplesmente se SIGA adiante com Ele.

Há uma nova geração a ser alcançada: A Geração do Tempo do Fim. E se o "Caminho da Graça" só servir para desconstruir antigos alicerces de fundamentação religiosa, que sem graça será esse Caminho. A Geração do Fim demanda outros aplicativos... Tem outros requerimentos! São jovens. Não conhecem nossas canções. Estão fora do circuito religioso. Estão em Antioquia. São amigos de Cornélio. Cornélio está por aí... sem pertencer a nada que se proclame de Deus, e doido de vontade de se encontrar com Ele!

A Geração do Tempo do Fim está para além da nossa arena. Nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra o espírito do curso desse mundo apocalíptico, fragmentado apesar de globalizado; gélico e insensibilizado apesar do estado de ebulição ecológico; suicida apesar de cercado de bem estar; ignorante apesar de tanta informação; solitário apesar de uma incrível e crescente multidão.

Esse é o nosso mundo... "Quem tem mais do que devia ter, quase sempre se convence que não tem o bastante!" Nossa luta é contra Mamon, reinante no trono das ambições que nos enriquecem enquanto destrói terra, mar e ar! De fato, esses são dias desleais.

Essa geração tem a alma perdida depois de ter ganho o mundo inteiro. Tem toda ciência, tem dono o saber, tem todo o controle, mas lhes falta ALMA. A depressão é o mal desse século e só vai aumentar. Essa é a geração do Tempo do Fim. E há um Evangelho para o tempo do fim. E esse Evangelho será pregado em todo mundo, e então virá o FIM.

Agora veja: Se nossas proposituras caminhantes forem só respostinhas tolas às tolices de nossos "pais" e seu fútil legado, então, meus irmãos, será de futilidades que viveremos enquanto assistimos o mundo acabar! Daí, seremos como a "igreja", que existe para cuidar de sua própria existência e perpetuação bem sucedida nesse chão! Daí que, se for assim, "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais... "

Assim como aquela Ceia em Fortaleza, toda contextualizada com o presente momento, o Caminho só se faz no tempo presente! E só se faz para frente! O "caminhante" não é um maratonista e nem um super-corredor anabolizado. Não. O "caminhante" é um paralítico que foi curado, mas carrega a maca que o mantém cônscio de que ele só caminha porque encontrou-se com Jesus no Caminho. E um filho da Graça e da Compaixão de Jesus! É lógico que haverá tensões com a turba religiosa sempre! Porque, afinal, não se carrega a maca em dia de Sábado! Contudo, as tensões não são bilaterais. São uni-direcionadas. A gente "finge" que não viu, "finge" que não é com a gente e toca pra frente!

Aqui em Santos, um dia desses recebi um recado do presidente do Conselho de Pastores da Baixada Santista: "Avise o Marcelo que vou aparecer por lá de SURPRESA!" Tadinho, ele vem me pegar. Vem defender Deus! Vem me impor resistência bem na hora em que eu estiver talvez sacrificando uma criancinha ou, quem sabe, chutando um velhinho durante uma reunião do Caminho! Sim, é assim que ele pensa que é. Ele vai chegar metendo o pé na porta e vai sair com os pés lavados! E só.

Hora de seguir adiante. Sem choro nem vela. Os mortos enterram a si próprios! Os vivos levantam e andam! Nossa autoridade não é da irreprensibilidade; e a autoridade de quem foi perdoado: "Levanta, toma o teu leito e anda!"

Acabou o "Caminho" como mensagem-resposta! A Mensagem é uma Proposta! Digo isso, porque receio que alguns de nós não conheçam a Mensagem senão somente em resposta à religião. Temo que, ao terminar os embates, a gente não tenha o que dizer!
As produções da reatividade são legítimas e necessárias sim! (vide Paulo). Contudo, a reação é uma fase, uma ocorrência, uma necessidade imediata, circunstancializada e correspondente. A reação é boa, carrega princípios em seu bojo; é sinal de vida e não de amargura. A não ser que a vida se resuma ás reações! Aí, endurecemos e perdemos a ternura!

As reações são tão legítimas quando as ações. Mas "uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa"!

Olha em Paulo como a reação produz para a Vida! Perceba Gálatas! "Quem vos seduziu?" Quem foram os "cães, falsos apóstolos, obreiros fraudulentos?", "Quem dera se castrassem os que vos incitam à 'justiça própria', à confiança em si mesmos, na carne!"... "Quem dera se mutilassem!" Sinta o espírito das cartas pastorais! É só reação! Veja a reação às proposituras coríntias: "Quanto ao que me escrevestes...", "... me foi comunicado pelos da casa de Cloé...", "Antes de tudo ouço que quando vos reunis...". "Ora, no tocante a..."; "Geralmente se ouve que há entre vós..."; "Fui insensato em gloriar-me, mas vós me contrangestes."...

A resposta é parte da proposta, não é a proposta em si.

A proposta é Romanos, a proposta é Efésios! A proposta está embutida em cada parábola, em cada encontro de Jesus nas narrativas dos evangelhos.

A proposta é pró-ativa, não é reativa!

A proposta é antes da fundação do mundo! A proposta diz respeito a toda alma, em todo e qualquer contexto, sobre qualquer tempo ou geração. É para todas as gerações! A proposta é para Hoje! Hoje é dia de salvação.

Sei que nem todos entenderão. Mas quem tem ouvidos para ouvir, ouça a Voz: "Vêm!"


***

Naquela manhã, o Fonseca cantou "Caminhando e cantando...Vem, vamos embora... Pelos campos há fome... Em grandes plantações. Os amores na mente. As flores no chão. A certeza na frente. A história na mão...Aprendendo e ensinando uma nova lição."

Ceiamos e fomos embora. De volta para casa.


Marcelo Quintela

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